quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mudez


__Num dia em que o céu estava cinzento e a calçada molhada, ouvi ao longe o som de um piano. Quis tê-lo mais perto, tocava no mais íntimo de mim, queria abraçar aquele som. Uma carroça apressada passou por mim, cobrindo-me de lama e água, mas aquele gesto passou-me ao lado, eu estava presa ao som do piano que tocava para mim. O som vinha de longe, da casa da montanha. depois da rua sombria que percorria. Apressei os meus pés e senti o cheiro ao fumo que vinha da chaminé daquela casinha de pedra, que tinha um piano que, lá dentro, alguém tocava.

__Aproximei-me e olhei pela janela. Como estava frio na rua. A janela estava embaciada. Podia ver o lume na lareira e o chocolate quente que alguém gentilmente lá colocara. Só do que via, já me sentia mais quente. Um rapaz tocava aquela mesma melodia que me estasiara. Era o Miguel, o mudo! Como é que alguém que a sociedade rejeita pode desta maneira tocar nos nossos corações?

__Ao ver-me, Miguel abriu a porta e, com palavras que os olhos evocam, mandou-me sentar. Ali fiquei a ouvi-lo, de lágrimas a rolarem-me pelas faces. Quem disse que os mudos não falam? Quando o Miguel terminou, decidi contar-lhe histórias, como se de uma criança se tratasse. Ele viveu-as como ninguém e disse-me isso mesmo, num olhar ternurento.

__Voltei para casa contrariada, não queria perder por nada os momentos ali vividos. Ficou a promessa de o voltar a visitar. Um dia ensinar-lhe-ei a arte de escrever!...

ANA SOFIA SERRENHO

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